Deus existe?
- dario38
- 26 de fev. de 2019
- 14 min de leitura
Atualizado: 2 de mar. de 2019
parte1
A minha grande convicção é a de que não existem ateus. confunde-se, muitas vezes, religião com teísmo, ora pode ser-se simultâneamente não religioso e não ateu. Muitas vezes ouvimos dizer: não acredito no que os religiosos alvitram mas lá que existe e, ou existiu qualquer entidade superior isso não pode deixar de ser verdade. A este respeito construí até uma frase: A DIVERSIDADE, BELEZA E COMPLEXIDADE DOS SERES VIVOS TORNA DIFÍCIL SER-SE ATEU. O homem é o ser conhecido mais importante mas não se fez a si próprio e essa premissa manter-se-á por mais maravilhas que construa. O mérito será sempre do seu criador, que deu vida a um ser de pensamento e inteligência evolutiva.
Mas, quem é Deus ou o que é Deus? Isso eu não sei e em boa verdade ninguém sabe. Seja o que for ou quem for Deus, apenas, e não é pouco, nos é revelado pela sua magnífica obra. A sua obra que não há razão nenhuma para se pensar que já terminou, pois estão sempre a aparecer novas espécies, para falar apenas sobre seres vivos, que é a área conhecida mais espantosa da criação, mais ou menos evolutiva. A evolução para uma espécie a partir de outra não deixa de ser magnífica, embora o surgimento do ou dos primeiros seres vivos, a partir de substâncias mais ou menos inanimadas, pois podem ser muitos, e em vários lugares, com capacidade para dar lugar a outros seres vivos, iguais ou diferentes, seja o grande feito universal.
Tal como o Universo, Deus sempre existiu. O universo é, praticamente, espaço vazio. Limpe uma sala até ao limite, ponha-lhe, depois, um grão de areia, o universo é mais vazio do que isso. Ora qualquer «big bang» que eventualmente tivesse acontecido, o que me parece altamente improvável, precisaria de espaço para a tal expansão alvitrada. Por tanto o universo é anterior a essa imensa massa imaginada. O homem que é um ser finito sempre precisou de balizar com princípios e fins tudo o que o rodeia.
É mais uma prova da sua insignificante estatura enquanto ser isolado, quando, apressadamente, divulgador de conceitos não suficientemente reflectidos.
Os corpos do universo, fraca existência para um espaço que é infinito, infinito em todos os sentidos, porque por detrás de qualquer fim que se imagine, haveria, forçosamente, mais espaço, são o resultado de aglomerações de partículas maiores ou menores, atómicas e subatómicas que se podem tornar mais ou menos instáveis, produtores ou não de energias várias, para além da propriedade atractiva que é, inexoravelmente, comum a todos os tipos e tamanhos da matéria. Os corpos maiores estão separados entre si por anos luz. Imagine a velocidade da luz, 300 mil quilómetros por segundo, quase instantânea para a nossa percepção e assim terá uma pálida ideia da grandeza do espaço sideral em função dos seus corpos por maiores que sejam. O sol, por exemplo, que é uma estrela de média grandeza, entre biliões de estrelas, tem um diâmetro igual a 109 diâmetros da Terra.
Sobre a existência de Deus escrevi um poema que não resisto a publicá-lo, também por este meio:

ELE ESTÁ AÍ
Na cor da rosa,
na juba do leão,
no brinco de princesa,
na tua inspiração,
na migração das aves,
na nossa compreensão,
na maravilha que é
poder comunicar,
na luz do sol até
que também vem no luar,
no cantar do rouxinol,
na beleza do olhar,
na música de uma canção,
na vida para dar
e que ninguém tem o direito,
seja ao que for, de tirar.
No correr de uma gazela,
no deslizar da serpente,
nas penas de um faisão,
no amor que se sente.
Ele está em tudo aí
e o que há para perceber
é que se fez beleza, quer o bem,
outra coisa não pode ser
e se te parece distante
é porque te quer diferente,
com a razão para usar,
e uma vida independente.
Se não usares a liberdade
para que te serve a mente?
Ele está, portanto, aí,
no riso de uma criança,
no salto dum felino,
no fluir do universo,
no mar imenso e azul,
nas estrelas do firmamento
que dão luz ao infinito.
Ele está em tudo, podes crer,
basta olhar
para ver.
12:08:09 . 06 Jul 2012
parte 2
Um dia, na minha aldeia, o padre perguntou ao maluquinho residente, em quase todas as aldeias há um, para lhe explicar o mistério da existência de Deus. - Olha lá tu sabes quem é que te fez? - Ora, respondeu o deficiente mental, foi a pichota do meu pai.
Com o termo pronunciado o padre embatucou, sem saber o que responder. As senhoras da missa disseram até que lhe deviam cortar a língua ao já suficientemente deficiente, e o assunto acabou por morrer sem que o Sr. Prior pudesse explicar fosse o que fosse.
Outras pessoas, no entanto, com mais responsabilidade na medição dos termos a utilizar, não são menos esclarecedoras, é o caso, por exemplo, do nosso ex-presidente Mário Soares, que admiro mas a quem não deixo de apontar certos episódios nada felizes como aquele em que o então presidente berrou. como se fosse um ditador malcriado, para um agente da autoridade que o escoltava numa moto, a ele e a quem o acompanhava num veículo de passageiros, e que, como é óbvio, cumpria ordens que muito antes lhe teriam sido transmitidas por superiores hierárquicos. - Ó homem desapareça...
Diz este senhor, bastas vezes, que não acredita em Deus, que acredita nos homens. Se lhe tivessem feito a pergunta que o prior fez ao maluquinho, subentende-se que a resposta seria... «foi o meu pai». Ora o homem, seja o pai de quem for, nestas acções , é uma peça, apenas, de uma sequência complexa que o ultrapassa. O Dr. Mário Soares e muitos outros que o acompanham neste tipo de afirmações, nunca pensaram nisso?
Muita gente diz, como justificação para as maravilhas que nos rodeiam. - Foi o acaso. Neste caso deificam o acaso. Vamos passar a escrever acaso com letra grande? claro que não. A complexidade conseguida nunca poderia ser fruto do acaso. Senão vejamos: imagine que numa betoneira gigante metemos todas as substâncias elementares necessárias à construção de um computador. Fazemos girar muito lentamente a betoneira ao longo de milhões de anos. Abrimos e que vimos? Um computador, construído somente pela força do tempo e do acaso, tal como um outro de outro género de modo a gerarem, juntos, computadores pequeninos com a possibilidade de crescerem e de se multiplicarem. Impossível não é? também acho. Faltou uma inteligência superior que pusesse os vários elementos em ordem com capacidade de se reproduzirem e evoluírem, com razão para usar.
11:59:45 . 28 Ago 2012
Parte 3
De acordo com o meu conceito de Deus alguns religiosos são mais ateus do que os que se dizem ateus. Muitos religiosos humanizaram-No. Criaram-lhe uma família e enviados, à nossa imagem e semelhança, para poderem intervir nas nossas vidas com o objectivo de as melhorarem, como se a obra que fez fosse imperfeita. Falharam nos inventados propósitos. Continuamos a pisar o risco de igual modo ou pior. Regionalizaram Deus. São varias as versões. Cada canto seu Espírito Santo. A imaginação é tão pouca que existem dezenas de versões só para o propalado e mais conhecido enviado especial. A esse propósito escrevi um conto ficcionado que passo a transcrever.
SABERES DO ORIENTE
Um médico alemão, que muito admiro, fundou um hospital numa região recondita de África. Este facto é, sobejamente, conhecido. O que, talvez, nem todos conheçam é o teor de algumas conversas que alguns nativos tinham entre si. Uma delas seria mais ou menos assim: - Ele é Deus. Matou o meu irmão, abriu-lhe a barriga, tirou-lhe as entranhas, cortou um bocado, coseu-lhe a barriga, ressuscitou-o e ele ali anda, rindo, sem as dores que o martirizavam.
Uma simples operação cirurgica a um apêndice causava esta admiração, neste choque claro de niveis culturais. O cirurgião nunca se aproveitou destas crenças para conseguir um estatuto diferente mas estes acontecimentos levam-me a pensar se teria sido sempre assim no decurso da história da humanidade.
O cirurgião nunca se aproveitou destas crenças para conseguir um estatuto diferente mas estes acontecimentos levam-me a pensar se teria sido sempre assim, no decurso da história da humanidade. foi esta história que me inspirou a que se segue.
Ele era um jovem que todos gostavam de ouvir. Dizia coisas que só pareciam ser possiveis se fossem ditas por pessoas mais experientes. Falava sobre profetas e forças superiores e desconhecidas que observavam e castigavam ou recompensavam. Referia-se, publicamente, a humilhados e ofendidos exploradores e explorados. Criticava os vendilhões que utilizavam os locais de culto para fazerem os seus negócios e venderem mercadorias. Apesar de jovem a sua cabeça já demonstrava uma preocupação grande com a vida, a saúde e o bem estar das pessoas que o rodeavam.
Queria, no entanto, aprender mais. Queria saber como se tratavam e curavam as gentes que a cada passo encontrava e que padeciam de inúmeras doenças, muitas sem qualquer esperança. Sofria por ver sofrer sem poder fazer nada.
Um dia ouviu dizer a uns mercadores itenerantes que em terras distantes, na outra ponta do mundo, onde o povo que dominava, escravizava e explorava as gentes e a terra onde tinha nascido, não tinham conseguido chegar, se aliviavam e curavam muitos padecimentos com saberes simples mas importantes.
Aquela revelação parecia-lhe um sonho. Decidiu que havia de visitar aqueles lugares distantes. Tinha que aprender para poder ser util aos seus conterrâneos, logo que os seus conhecimentos lhe permitissem regressar.
Pediu a mercadores que, embora não fossem tão longe, o deixassem ir com eles, tão para a frente quanto fosse possivel, no sentido dessas terras distantes e de outrs saberes. Faria o que fosse preciso e outra paga não queria que o alimento que, embora parco, fosse suficiente para continuar sempre no sentido do sol quando nasce.
Assim foi, ora com uns ora com outros com quem também ia aprendendo e a quem retribuia com a mesma moeda, testando as práticas e os conhecimentos que ia adquirindo, tornando-se sempre muito estimado dado o prazer em ajudar os seus próximos.
Percorreu durante muitos anos essas terras do sol nascente, até que só de um imenso mar se via nascer. Quando os itenerários dos mercadore se tornavam desajustados ou insuficientes, para os seus propósitos, fazia outras incursões com outros mercadores.
Conviveu com muitas gentes. Absorveu outras culturas e ensinamentos. Aprendeu a curar com argilas e fungos. Aprendeu, também, várias técnicas de auto-domínio e de se auto-sugestionar e sugestionar outros, de utilizar a força da mente para controlar o seu corpo ou controlar outras mentes. Conseguia suster a respiração a níveis quase inacreditáveis em posições estáticas e meditativas, utilizando esses atributos apenas para entender o mundo que o rodeava e conseguir resultados benéficos para quem necessitava, tirando para si, apenas, o indispensável para viver, sentindo-se feliz por ajudar outros a serem felizes.
Assimilou conhecimentos e filosofias de muitos homens sábios, uns do seu tempo, outros de tempos já passados mas com mensagens tão fortes que continuavam vivas e eram transmitidas de umas para outras gerações.
Aprendeu, também, por gostar de, diga-se em abono da verdade, deixar preplexos quem presenciava os seus feitos, artes de entretenimento, de enganar, de parecer uma coisa mas ser outra.
Um dia considerou que já sabia o suficiente para ajudar o povo da terra de onde tinha vindo e onde tinha nascido e pensou em regressar. Homem adulto e forte. Forte de compleição física, atitude mental e conhecimentos.
Juntou-se a outros mercadores, durante muitos outros tempos, continuando a aplicar conhecimentos e técnicas de cura. Era um homem sempre útil, por onde passava ou parava com os seus companheiros, que o tinham sempre em grande conta, até que chegou aos lugares da sua infância.
A mãe ainda era viva e nunca perdera a esperança de voltar a ver o filho. Foi muito grande o seu contentamento. Aquele sempre fora o seu filho dilecto. Já pouca gente o conhecia ou se lembrava dele, mas ainda tinha amigos que recordavam a sua precocidade e o admiravam. Achavam-no agora muito diferente na aparência física e estranho nas falas mas gostavam de o ouvir e a pouco e pouco foram entendendo o que dizia. Uma mulher muito bonita, que ele se recordava, vagamente, de ver quando ainda menina, também aparecia muitas vezes na sua roda de amigos, que o ouviam atentamente, fazendo perguntas sobre as vidas de outras paragens.
Muito rapidamente passou , também, a empregar os seus conhecimentos como curandeiro. Era esse, aliás, o seu principal objectivo. Os padecimentos, as doenças para que não havia cura conhecida, as cegueiras, as paralesias e outras enfermidades de possível mas desconhecida recuperação e que o afligiam quando ainda adolescente, tinham, agora, com os conhecimentos adquiridos noutras paragens e em muitos casos, hipótese de alívio, regeneração e até cura total e não perdeu tempo. Continuava a só querer para si a subsistência e, agora, também a companhia da mulher bonita que já lhe tinha ficado no olhar quando ainda jovem.
Usava, nos seus tratamentos e curas, fungos e argilas, plantas em beberragens e tisanas. Ordenava exercícios e massagens e consumos alimentares possíveis e específicos para cada caso. Impunha o poder da sua mente e da sugestão sempre que se tornava necessário e o seu sucesso passou a ser tão grande que o julgavam um Deus. Ele que a princípio repudiou tal tendência, começou a gostar desse juizo e como o mundo parecia girar à sua volta, o que acontece com todos e com cada um de nós o que nos faz parecer, por vezes, especiais e que chega a convencer alguns, acabou por aceitar que Deus não seria mas, quando muito, filho d,Ele, o que nem seria demais pois que, à luz de muitas crenças, também o somos todos e cada um de nós.
Mandou construir e construiu ânforas e cestos de segredo que pareciam vazios mas que ainda continuavam com líquidos ou sólidos em compartimentos secretos e divertia-se com a perplexidade e o extase de quem observava, que era cada vez em maior número, tal a sua fama que crescia descontroladamente, o que trazia apreensivos a princípio, agressivamente zangados depois, quem governava e que não queria partilhar o poder com ninguém, nem ninguém, por perto, que lhes fizesse sombra.
Assim, feitas algumas auscultações e acusações pouco vestidas de verdade e engenhosamente engendradas pelos poderes, garantidas por uns e aceites por outros, que foram cuidadosamente espalhadas para o povo e depois pelo próprio povo, sobre actidades criticáveis e, até, criminosas, mas com o objectivo de evitar a defesa do curandeiro, ou conduzir a descontentamentos generalizados e levar a opinião popular à exigência de uma condenação de quem apenas pretendeu, embora ingénua e descuidadamente, ser útil ao povo a que pertencia.
A sua condenação à morte não foi fácil mas acabou por ser inevitável. Morrer pregado num madeiro era a maneira bárbara mas usual depois de torturas e humilhaçôes várias. Até os amigos e companheiros mais chegados, compreensivamente, se afastaram. Só as mulheres o acompanharam.
As mulheres são sempre mais corajosas e aquelas eram as suas mulheres. A mãe e a companheira que o consolaram e lhe aliviaram as dores, até ao lugar da execução e durante todo o tempo do seu martírio.
Morrer seria, no entanto, consumar uma injustiça e o curandeiro conseguiu, no meio dos gritos da turba que já haviam esquecido a solução de muitos padecimentos de tantos que agora também vociferavam, mais em autodefesa do que em convencido ataque, transmitir à companheira a sua intenção de sobreviver. Passado o tempo de costumada sobrevivência, em casos semelhantes, e depois de um sinal, quase imperceptìvel, simularia um desfalecimento final como se a morte o tivesse, por fim, libertado de tanto sofrimento.
No meio de dores atrozes foi pregado no madeiro, que ele próprio tinha carregado, e, durante vários dias, sempre acompanhado pela mãe e pela companheira, que providenciavam, a cada passo, para que a sede e as dores que sentia e que eram visíveis em espasmos impressionantes, fossem aliviadas, passando-lhe pela boca e pelas feridas panos embebidos em tisanas, previamente preparadas e que a mãe transportara e cuja aparência era a de ser apenas água.
Chegado o momento inteligentemente escolhido pelo curandeiro, que nunca perdera a sua capacidade de raciocínio, olhou para a companheira e o seu corpo descaiu, flácido e inerte acabando por ficar totalmente imóvel. A companheira chamou o guarda e pediu-lhe para descer o seu amado. O experto aproximou-se do condenado, espetou-lhe a lança no torax e como não visse a mínima reacção à dor, que, decerto causou, nem sequer sangue pois já pouco o corpo teria, autorizou a que o despregassem e o levassem para o sepulcro.
Alguns companheiros que observavam, cuidadosamente ao longe, e que ainda acreditavam num final diferente, ficaram profundamente tristes. O mestre, tal como muitos o consideravam, era um simples mortal. Um homem muito especial, na verdade, isso nenhum dos seus próximos punha em dúvida, mas apenas um homem, e foram, cabisbaixos, abandonando o local cada um para o seu lado.
A mãe e a companheira pediram ajuda a alguns obsevadores, necrófilos, mais próximos e o corpo foi despregado. As mãos e os pés já estariam insensíveis, mas nem um espasmo, uma contracção, um gemido, um sinal de vida, enquanto alguns estranhos retiravam o condenado que acabaria por cair, desamparado, não fora o regaço protector da mãe e o apoio, sempre presente, da companheira.
No sepulcro o corpo foi tapado com um pano e outros para conservar o calor. Sobre a boca e debaixo dos panos que também cobriam a cabeça as mulheres iam colocando outros embebidos em água, tisanas e alimentos líquidos que o curandeiro injustiçado ia sorvendo e que acabaram, também, por manchar um pano branco que o cobria, que parecia revelar as suas feições e que a mãe guardou, carinhosamente, sem nunca o lavar. As cerimónias funebres foram, também, cuidadosamente simuladas e o corpo, em restabelecimento, prontamente escondido.
Passados três dias, já o curandeiro se encontrava em condições de andar, embora a custo, com as mãos, os pés e o tórax enrolados em panos a protegerem as chagas e as tisanas que aliviavam as dores e as viriam a curar, tal como a muitas outras feridas espalhadas pelo corpo. Muitas, certamente, infligidas por quem queria ser considerado afastado de um condenado proscrito, embora tivessem beneficiado dos seus conhecimentos.
Teriam que fugir para bem longe do jugo do povo que os colonizava e escravizava e que o condenou. Não faltavam ao curandeiro lugares conhecidos e até amigos que o receberiam, de bom agrado, mas antes queria ver, uma última vez, os seus amigos e companheiros mais chegados. A mãe e a companheira bem tentaram que ele desistisse dessa ideia, por ser muito perigosa, mas face à sua inabalável determinação foi a própria companheira quem preparou o encontro.
Pela calada da noite um pequeno grupo esperava, num sítio ermo, anciosos para que reunião comessasse e acabasse depressa . Ao longe apareceu, vindo do negrume, um vulto branco que parecia flutuar no espaço. Aproximou-se, e abraçou os companheiros. Também ele não queria que o encontro demorasse muito tempo. - Afinal és Deus, disse um. - Não Deus é uma força poderosa e universal, eu sou filho de Deus. - Somos todos e tudo, pensou, mas não disse. Queria que não se perdesse a força que a crença no sobrenatural determina para que os companheiros continuassem o seu trabalho. E foi isso que pediu. Ainda retirou uma ligadura de uma mão, porque lhe pediram, para mostra a chaga que ainda impressionava.- O povo, a que pertencemos, precisa da vossa ajuda. Façam uso do que aprenderam comigo. Cuidado com os inimigos que a cada canto espreitam. Sejam humildes e rejeitem famas perigosas, efémeras e inglórias. Vivos e em acção sois mais úteis do que mortos.
Dito isto voltou a abraçar os companheiros e afastou-se, na escuridão, como uma nuvem branca que desaparece. Os companheiros ficaram petrificados. O mestre era filho de Deus e tinha ressuscitado. Tinham agora coragem suficiente para continuar.
A companheira, que também tinha assistido ao encontro, ficou mais um pouco para não deixar que alguém pretendesse segui-lo e foi para casa. Depois de se retirar da reunião e percorrido algum caminho até deixar de ser avistado pelos companheiros, o mestre tirou a túnica branca, que facilmente o denunciava,e, andrajosamente e de negro vestido, deu algumas voltas para disfarçar o seu percurso, dirigindo-se, depois, para o seu esconderijo.
Não arriscaram mais e acabaram, o condenado e a família mais próxima, por ir viver para bem longe. Nos itineráririos já bem conhecidos do nosso herói encontraram um lugar calmo e aprazível onde se fixaram e viveram ainda por muitos anos. Foi pai de vários filhos e todos tiravam da terra o seu sustento.
Nunca deixou o curandeiro de ajudar os mais próximos, aplicando os seus muitos conhecimentos mas sem deixar que a sua actividade fosse conhecida muito para além do lugar onde vivia.
Ficaram, a sua fama e o conhecimento dos seus feitos, no entanto, no lugar que tinha deixado onde foram conservados, dilatados, difundidos, atravessando as fronteiras e os tempos.
Os adeptos e os crentes na verdade das ideias, das atitudes, das curas, das artes de parecer o que não é, cresceram para números impensáveis mas também foram surgindo hipócritas, falsos representantes, oportunistas, que criaram vidas faustosas, umas e miseráveis outras, injustiças, torturas, crimes, negócios, vendilhões, mais em número e maiores em asquerosidade do que os que foram espulsos dos locais de culto dos sítios e nos tempos desta história.
Nunca o nosso herói teria imaginado tais consequências, quando a sua preocupação era o bem-estar do seu povo, o povo onde pertencia, e a expulsão dos invasores que o escravizavam. Ele nem sequer tomou conhecimento de tais situações, nem do trabalho levado a cabo pelos seus companheiros, tal como era a sua vontade, enquanto viveu. A comunicação não era tão eficaz como é hoje.
Morreu velho, com a acompanheira que sempre admirou a sua força interior, a sua capacidade de ser solidário e a energia de quem não deve ser responsabilizado pela enormidade de acontecimentos nefastos que se cometeram e ainda se cometem em seu nome. Sofreu. Pagou pela sua falta de humildade. Mereceu, no entanto, acabar a sua vida com quem sempre amou e o amou, feliz, apesar da amargura que sempre sentiu de nada saber do seu povo a quem tudo deu até quase o sacrifício da própria vida.
11:45:53 . 30 Set 2012

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