
Pinto Calçudo
À minha mãe
Almoço Real
- Ó Bítaro !...Bííííííítaro !....
Era assim que a ti Ernestina pronunciava o nome de um dos meus companheiros de brincadeira e seu neto. Diziam que era do norte, bimba, onde trocavam os vês pêlos bês.
- Bííííííítaro !... ó Bítaro, - anda comer o bifinho senão arrefece e depois não tem graça nenhuma.
O Vítor fazia de conta que não ouvia e continuava a correr, comigo e com outros, atrás de uma bola feita de trapos envolvidos por uma meia comprida de mulher, no meio da rua de terra endurecida.
- Bííítaro,!... anda comer o bifinho, anda..., repetia a velha, bem alto, para que os vizinhos soubessem que em sua casa se comiam bifes, coisa que não entrava na maior parte das outras.
O Vitor era filho de um barbeiro, que além do ordenado ainda ganhava as gorjetas e a mãe também trabalhava a apanhar as malhas das meias de "vidro" das mulheres, perdão, das senhoras que as podiam comprar naquele bairro de gente pobre da pequena cidade de província onde vivíamos.
- Bíííííítaro !...ò Bííííítaro !....
O Vitor continuava a não ligar, mas a nós ia-nos crescendo água na boca e, a pouco e pouco, um agora outro logo, fomos tomando o caminho de casa pois, embora ainda ninguém nos tivesse chamado, já começavam a ser horas de se ir procurar alguma coisa que se mastigasse.
A minha mãe estava a lavar o sobrado com sabão amarelo, que deixava as tábuas do chão amarelinhas e cheirosas. Não fazia ainda conta que eu voltasse da brincadeira e não teria voltado, de facto, se o raio da imagem do bifinho não me tivesse estimulado as glândulas salivares e o apetite.
- Já ?!..., bom ..., foi dizendo sem se levantar,... então vai à cozinha e come metade de um rabo de chicharro que está no tacho pequeno; põe-lhe um fiinho de azeite. Com um prato de misturadas já não é nada mau. Concluiu a minha mãe ao ver-me franzir o nariz.
Sentei-me com o prato à minha frente, os olhos na metade do rabo de chicharro e o pensamento no bifinho do Vitor que nem sequer parecia estar muito interessado nele.
Como que a ganhar alento fui levantando os olhos pela parede até ao quadro que tínhamos com uma estampa do rei Jorge VI, a rainha e as duas filhas a Isabel e a Margarida. Da magnificência do salão da estampa e da simplicidade da minha cozinha, passamos, num instante, para um areal deserto, olhando uns para os outros, sem sabermos, ao certo, porque estávamos naquela situação.
As princesas Margarida e Isabel estavam pálidas e enfraquecidas pela caminhada já feita. A rainha caminhava a custo apoiada no braço forte do rei que incitava à coragem mas que, no fundo, também estava preocupado pois há dias que andávamos para ali perdidos sem ter que comer nem beber.
Lembrei-me então que conhecia um pescador e que a sua casa já não devia ficar longe. Ele nos ajudaria.
Com novo alento continuámos a caminhar até que começámos a ouvir o barulho do mar e a perceber-se, na paisagem, a mancha pequena e solitária da cabana do pescador. Andámos mais depressa, embora mal nos pudéssemos manter de pé. Corri à frente, bati à porta até o ti João, o pescador, aparecer.
Descansámos um pouco e bebemos água da bilha. O ti João só tinha um chicharro cozido e pão de milho.
- Tu já sei que estás habituado, disse o ti João, voltando-se para mim, - mas suas majestades ?!..., não sei se gostarão.
Gostavam; e de que maneira. O rei Jorge, sorridente, comeu a parte da cabeça, chupando, com ruído, as partes duras, ao mesmo tempo que acompanhava com pão de milho e água da bilha. A rainha comeu metade do rabo e as princesas as duas postas fechadas do meio. Todos estávamos sorridentes. A mim calhou-me a outra metade do rabo que incluía a espinha.
Comi todo o peixe até o que se encontrava entre as espículas da serrilha lateral. Parti, uma a uma, todas as vértebras da espinha e sorvi a medula e o nervo lateral que saiu todo inteirinho. Mostrei a lasca dorsal castanha, o sangacho, à princesa Margarida e disse-lhe que era chocolate. Era o que a minha mãe me dizia. A princesa, que sabia bem o que era chocolate, sorriu. Dado o seu desinteresse comi-a, pois que a tinha guardado para o fim como se se tratasse de uma sobremesa. Comi ainda um naco de pão de milho e bebi água da bilha.
O ti João disse-me para eu servir, depois, a cada um, uma tigela de misturadas; sopa de couves, feijão encarnado, cenouras e batatas, que entretanto aquecera no fogareiro a petróleo.
Tínhamos, finalmente, conseguido uma excelente refeição.
Perguntei depois ao Vitor, quando voltamos às brincadeiras da rua, se o bife estava bom. - ...ah..., também comeste bife?... - perguntou-me enfastiado o Vitor. -... Não, mas almocei com a família real de Inglaterra.
O Vitor nem ouviu pois correu para a bola nesse instante.
- Bítaro !... ó Biíííítaro !..., bê se paras um pouco rapaz. Gasta-se um dinheirão e nada te faz probeito com essas correrias. - Bi í í íí taro !... tu não ouves Bítaro!...